De onde veio a história do vulcão? A lenda urbana que marcou gerações em Caldas Novas e Rio Quente

Caldas Novas / 305

O Formato da Serra de Caldas e as águas quentes alimentaram durante décadas a crença de que havia um vulcão na região; estudos geológicos, porém, apontam outra origem para o fenômeno

Durante décadas, uma história atravessou gerações em Goiás: a de que um vulcão estaria escondido sob a Serra de Caldas e seria o responsável pelas águas quentes de Caldas Novas e Rio Quente. A crença popular ganhou força justamente por uma combinação curiosa: o formato da serra, que visto de determinadas perspectivas lembra uma estrutura vulcânica, e a temperatura elevada das águas que brotam na região. Estudos geológicos, entretanto, apontam que as águas termais têm origem em um fenômeno geotérmico, e não em atividade vulcânica.

A Serra de Caldas, localizada entre os municípios de Caldas Novas e Rio Quente, possui formato elíptico e topo aplainado, características que ajudam a explicar a associação popular com um vulcão. Segundo o Governo de Goiás, a formação atual da serra está relacionada a eventos tectônicos ocorridos há cerca de 600 milhões e 130 milhões de anos, que movimentaram, fraturaram e arquearam as rochas da região. 

O escritor Ricardo Almeida, um dos autores do livro “A Maravilhosa Região das Águas Termais de Goiás”, também relaciona a aparência da serra à origem da lenda. Segundo ele, uma imagem da formação vista de cima pode lembrar “um vulcão de boca aberta”, associação que ajudou a alimentar a narrativa popular sobre a existência de uma cratera vulcânica na região.

A explicação ganhou ainda mais força porque as águas termais de Caldas Novas e Rio Quente são conhecidas pelas temperaturas elevadas. A ideia de que existiria magma sob a serra para aquecer as águas acabou se tornando uma explicação simples para um fenômeno geológico mais complexo.

A documentação oficial do Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCAN), no entanto, apresenta outra explicação. Segundo o órgão ambiental, não há águas quentes no interior do parque. O fenômeno ocorre porque as águas das chuvas se infiltram pelas fraturas existentes nas rochas, entram em contato com o gradiente geotérmico e, depois de aquecidas, retornam à superfície por diferença de pressão. 

A mesma explicação aparece em estudos geológicos reunidos pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB). O órgão registra que a origem das águas termais da região chegou a ser atribuída à atividade vulcânica em razão da forma geomorfológica da Serra de Caldas. Pesquisas posteriores, porém, passaram a relacionar o fenômeno ao aquecimento provocado pelo gradiente geotérmico. 

Na prática, a Serra de Caldas funciona como uma importante área de recarga dos aquíferos termais. A chuva que cai nas áreas mais elevadas pode penetrar no solo e alcançar fraturas nas rochas. À medida que a água circula em profundidade, ela é aquecida pelo calor natural do interior da Terra e posteriormente retorna à superfície, dando origem às fontes termais que ajudaram a transformar Caldas Novas e Rio Quente em importantes destinos turísticos. 

A formação geológica da serra também ajuda a contar uma história muito mais antiga do que a própria lenda do vulcão. De acordo com o Governo de Goiás, as rochas sedimentares da Serra de Caldas, submetidas a metamorfismo de baixo grau, tiveram origem em um ambiente marinho há aproximadamente um bilhão de anos. A elevação que existe atualmente é resultado de processos geológicos posteriores, e não de uma antiga estrutura vulcânica. 

Outro ponto utilizado para questionar a hipótese de um vulcão está na composição geológica da região. Estudos citados pelo SGB identificam na área rochas metamórficas e sedimentares, enquanto pesquisas acadêmicas sobre as águas termais registram a ausência de rochas de origem vulcânica na Serra de Caldas. 

A crença, portanto, não surgiu do nada. Ela foi construída a partir de uma característica real e impressionante da paisagem — a aparência da Serra de Caldas — combinada com um fenômeno igualmente extraordinário para quem observa a região pela primeira vez: a existência de águas naturalmente quentes. Durante muito tempo, o vulcão serviu como uma explicação intuitiva para aquilo que a ciência posteriormente passou a compreender por meio da geologia e da hidrogeologia.

Hoje, a própria Serra de Caldas é reconhecida como uma área fundamental para a manutenção do sistema hidrotermal que sustenta as águas quentes dos dois municípios. O PESCAN foi criado em 1970 e protege mais de 12 mil hectares, incluindo áreas importantes para a recarga dos aquíferos termais. 

Assim, embora a história do vulcão continue fazendo parte do imaginário popular e da memória de moradores e visitantes, as evidências geológicas disponíveis apontam para outra explicação: as águas quentes de Caldas Novas e Rio Quente são resultado da circulação subterrânea da água da chuva e do gradiente geotérmico das rochas. A serra que durante décadas foi associada a um suposto vulcão guarda, na realidade, uma história geológica própria — marcada por antigos ambientes marinhos, movimentos tectônicos, fraturas nas rochas e pelo lento ciclo subterrâneo que transforma a água da chuva em uma das principais atrações naturais de Goiás. 

Fonte: Governo de Goiás – Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCAN); Serviço Geológico do Brasil (SGB); informações originalmente publicadas pelo g1 Goiás e declarações de Ricardo Almeida.
Crédito das fotos: Divulgação/USGS/Nasa.